sábado, 4 de agosto de 2018

OPINIÃO: LULA APEQUENA O PT, ARROSTA A JUSTIÇA E HUMILHA OS VELHOS ALIADOS


O que está acontecendo com o ex-presidente Lula, o maior líder político do país depois de Getúlio Vargas?

Em poucas horas, no final da tarde de sexta-feira, ele conseguiu fazer strike contra ele mesmo e o partido que criou 30 anos atrás.

De uma só tacada, Lula apequenou o PT, a sua direção, os militantes reunidos na convenção nacional em São Paulo, humilhou possíveis aliados e advogados de defesa, e arrostou novamente a Justiça, onde tem perdido todas as paradas.

Preso há quatro meses numa cela solitária em Curitiba, Lula parece ter perdido contato com a realidade, lamento muito ter que dizer.

Apenas uma semana depois daquele belíssimo festival de música e democracia em defesa do Lula Livre!, no Rio, que reanimou a militância petista, já estavam todos comemorando a indicação de Manuela D´Ávila, do PCdoB, como vice de Lula, que seria anunciada na tarde deste sábado.

A notícia dada primeiro pela agência Reuters agitou as redes sociais e eu mesmo até me animei a bolar um slogan para a chapa Lula-Manu: “A esperança voltou”.

Durou pouco a alegria, como costuma acontecer. Voltou a tristeza.

Ao ser informado sobre o andamento da convenção, que estava fechando a chapa presidencial, Lula chamou às pressas a Curitiba a presidente do partido, Gleisi Hoffmann, e mandou dizer que não havia nada definido.

Decidiu sozinho que o partido não acataria o prazo da Justiça Eleitoral para a inscrição das chapas até segunda-feira, dia 6, o que pode até impedir a participação do PT nestas eleições.

No momento em que o PT parecia sair do isolamento para transformar a convenção nacional numa grande festa, voltou tudo à estaca zero.

Lula queria mais prazo para tentar ainda uma aliança com Ciro Gomes porque acredita que só haverá espaço para um candidato do campo da esquerda nesta eleição.

Mais ou menos na mesma hora, Ciro tinha divulgado uma carta aos brasileiros na rede social em que acenava para um possível diálogo com o PT, se Lula puder ser candidato.

Ao sair do presídio, falando em nome de Lula, Gleisi deu o primeiro sinal:

“Não tem nada fechado, é uma possibilidade (Manuela como vice). Nós temos o PDT como aliado. Acho que Ciro Gomes seria um bom vice para o presidente Lula”.

Pelo que conheço de Ciro, isso deve ter deixado o ex-ministro de Lula ainda mais irado com a direção do PT.

Como assim, vice de Lula, se a candidatura de Ciro já tinha sido oficialmente lançada pelo PDT esta semana?

E, ainda por cima, apresentada, assim de passagem, por Gleisi Hoffmann, a repórteres incrédulos que aguardavam a saída dela do prédio da Polícia Federal.

De mais a mais, a única pessoa que poderia conversar com Ciro sobre a formação desta chapa seria o próprio Lula.

Mas por que só agora, que está se esgotando o prazo legal para a formação de chapas?

Por que os dois não conversaram antes, se tantos líderes políticos já tinham estado na cela de Lula em Curitiba discutindo a formação de uma frente de esquerda?

Ciro não quis ir lá ou Lula não aceitou receber o antigo aliado? Quem vai saber…

A esta altura, quem ainda pode acreditar numa chapa Lula-Ciro disputando a eleição no dia 7 de outubro?

A única consequência prática de toda esta lambança, até o momento em que escrevo, foi humilhar o eterno aliado PCdoB e sua a presidenciável Manuela D´Ávila, que toparia retirar sua candidatura para ser vice de Lula.

Querem agora que ela espere no banco de reservas até o dia 15, quando Lula e o PT finalmente vão decidir o que pretendem fazer da vida?

Só falta agora Ciro conseguir trazer Manuela para ser vice dele, o que já se estava especulando na manhã deste sábado, em que o PCdoB também está fazendo a sua convenção.

No fim, vai acabar sobrando para o PT fazer uma chapa puro sangue, sem Lula, o que colocará em risco a própria sobrevivência do partido.

Para completar, nesse meio tempo, sem quase ninguém perceber, o diretório nacional do PT derrubou por 57 votos a 29 o recurso de Marília Arraes para manter sua candidatura a governadora de Pernambuco, que foi rifada pelo partido no acordo tabajara com o PSB, só para isolar Ciro Gomes.

Com isso, conseguiram apenas rachar o PT de Pernambuco, que homologou a candidatura de Marília, e o PSB de Minas, que deveria retirar a candidatura de Márcio Lacerda para apoiar o petista Fernando Pimentel, mas vai recorrer à Justiça

A semana chega ao fim com a convenção do PT esvaziada de sentido, sem a presença do candidato a presidente, que continua preso, e sem vice definido.

Para mim, que acompanho a longa história de Lula e do PT desde o início, é simplesmente inacreditável e inexplicável o que aconteceu nos últimos dias e horas.

Se não consigo entender, como poderia explicar?

Me lembrei de um artigo do português José Saramago, Nobel de Literatura, publicado no jornal espanhol El País, em que ele escreveu:

“Até aqui eu cheguei. De agora em diante, Cuba seguirá seu caminho, eu fico por aqui”.

Saramago considerou imperdoáveis as execuções de três dissidentes cubanos acusados de terrorismo e rompeu com Fidel, por achar que “discordar é um direito escrito com tinta invisível em toda declaração de direitos humanos”.

“Tem coisa que pode e tem coisa que não pode”, simplesmente, já filosofava o sábio Frederico Branco nos anos 60 do século passado, na velha redação do Estadão.

Desse jeito, Lula e o PT estão deixando sem argumentos até os mais fiéis militantes que ainda os defendiam após o golpe parlamentar que derrubou Dilma e levou o ex-presidente à prisão.

Em vez de voltar ao poder, correm agora o risco de assistir a uma disputa entre direita e extrema-direita no segundo turno.

Não era este o final que eu imaginava no começo desta história.

Vida que segue.

Balaio do Kotscho

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