segunda-feira, 20 de agosto de 2018

Crônica de um Domingo marcado pela tragédia da indiferença.

Ontem, ao anoitecer, saindo da missa das 17:00h na catedral do Crato, enquanto caminhava tranquilamente para casa, ouvi um estampido seco. Em princípio achei que fosse algum tipo de bomba, e segui caminho. Mais uns passos adiante outro estampido, olhei em direção ao som, mas não me foi possível ver nada. Ao chegar do outro lado da rua, um terceiro estampido, seco. A ele seguiu-se um silêncio, e o meu pensamento ordenou-se: certamente aquilo não eram bombas. Quando ensaiei dar meia volta para ver o que ocorria, encontrei um casal, a moça visivelmente nervosa me dizia para não voltar, pois “um homem atirou numa mulher e correu”. Automaticamente pensei: mais um feminicídio para as estatísticas do Cariri.
Fiquei ali, no meio da calçada, parada. Não podia seguir caminho. Não como se nada tivesse acontecido, com a indiferença que nos é peculiar. Perto de mim, na calçada foi chegando mais gente. Em sua maioria mulheres. Atônitas, arregaladas, com medo (de novos disparos talvez) olhávamos com um olhar cúmplice, solidário. Ao relato que era mais uma de nós tombada em praça pública, no fundo todas sabíamos, conscientemente ou não, do que se tratava.
Paradas lá, não tínhamos muito o que dizer, não nos conhecíamos. Só tínhamos aparentemente em comum o feminino que nos caracteriza numa sociedade machista e misógina. Só relatávamos o barulho que todas havíamos ouvido. Naquele momento, apesar do ocorrido reinava certo silêncio.
Eu ainda não conseguia seguir meu caminho. Saí da inércia e fui em direção a um pequeno ajuntamento de pessoas que se formava. Lá, em meio a uma multidão que falava baixo entre si: “não dá para ver quem é”; “ele correu”; “alguém já chamou os bombeiros?”; vi o corpo estendido já aparentemente sem vida no banco da praça. Estava claro que ela não teve tempo de reagir. Apenas tombou de lado, vítima dos disparos que lhe ceifaram a vida. Mas, mais do que o corpo, para o qual não olhei muito, me chamou atenção a pequena bota de criança que estava junto dela no banco. As proximidades repletas de brinquedos infantis por causa da festa da Igreja, insinuavam que o dono daquele pequeno sapato devia estar por ali, brincando, enquanto ela do banco olhava.
Sem dúvida mais um feminicídio, pensei. Desses que não gostam que falemos, desses que muitos dizem não existir. Não procurei saber mais nada. Baixei a cabeça, desanimada, triste, cansada.  A igreja, cuja missa tinha acabado de terminar, e outra estava prestes a começar, celebrava naquele domingo a assunção de Maria. Maria, mulher, mãe, como aquela cujo corpo estendido no banco, já sem vida, era.
Caminhei para casa. A botinha no banco não saia do meu pensamento. Onde estava seu dono? Ele viu sua mãe tombar morta? Por que ele não estava ali ao redor? Teria se apercebido que aquela multidão se juntava em torno do corpo de sua mãe?
Mais ou menos 1 hora mais tarde, as redes sociais, os portais que noticiam a desgraça alheia veiculavam fotos do acontecido. Fotos do corpo morto, fotos da vítima, tiradas certamente das redes sociais. Fotos do assassino. Noticiavam também que este último havia levado consigo a criança, seu filho, depois de tirar a vida da mãe.
Todos chocados. Horrorizados, com algo que já se tornou corriqueiro no Brasil, esse país onde machismo, misoginia e feminicídio não existem, são apenas frutos de mimimi de esquerdopatas corruptos e de feministas “mal comidas”.
Algumas horas depois, desci para jantar. O sentimento de tristeza e impotência que me arrebatavam haviam também tirado minhas palavras. Ao passar pela praça, para minha surpresa, aproximadamente duas horas depois do crime, a missa corria normalmente.  Era uma missa festiva. Celebrava a assunção de Maria, mas era também dedicada à juventude, como o padre falara mais cedo: “aos jovens dos colégios católicos, e públicos da cidade”.
Esses mesmos jovens, com os quais não podemos discutir gênero, cuja nota que foi lida meses atrás na mesma catedral chamava de “ideologia de gênero”.  A Igreja que não quer que se discuta gênero é a mesma que continua sua missa, mesmo com o corpo de uma mulher assassinada pelo ex-companheiro estendido no banco da praça a poucos metros do altar.
Nos arredores da praça, a sociedade cratense lotava os restaurantes, comendo e bebendo alegremente. Todos, vez por outra dando garra de seus celulares e alimentando as redes sociais com a revolta e a comoção pelo ocorrido. Quando a tela do celular apagava, era mais uma risada, uma cerveja, uma garfada. E o corpo lá.
Na praça, crianças continuavam lotando os “pula-pula”, passeando em “motinhas” elétricas, correndo, comendo doces, pipocas.  O transitar de pessoas parecia perturbadoramente indiferente. A única coisa que anunciava que algo estava diferente era o amontoado de pessoas silenciosas cercando um banco da praça, onde jazia sem vida um corpo morto. Corpo de mulher, mãe. Corpo de Maria, que não teve sua assunção, teve a usurpação de sua vida. Enquanto as outras vidas seguiam indiferentes.
Então, senhores, senhoras, senhoritas, não falemos de gênero. Calemo-nos. Feminicídio é bobagem. É mimimi. Sigamos armando nossos “cidadãos de bem”, e entre o corpo sem vida de uma Maria e outra, festejemos.
Festejemos Nossa Senhora, bebamos nossas cervejas, comamos nossas pizzas, deixemos que nossas crianças brinquem com naturalidade nas proximidades de uma mãe assassinada e nos indignemos sobejamente nas redes sociais. Entre um zap e outro, o que vale é aparentarmos humanidade enquanto somos cada vez mais desumanos e insensíveis a dor do outro.
Afinal, feminicídio não existe, nem o corretor ortográfico do meu computador o reconhece. Não falemos de gênero. Continuemos em uma sociedade onde os homens são ensinados que as mulheres são suas posses, como coisas, e como coisas podem fazer de nós o que bem entenderem, até matar-nos em praça pública, porque isso já é coisa banal. Tradição, uns diriam. Nada mais potente que a força da tradição. Nada mais desafiador que a tradição. Quebremos essa tradição para que ela pare de nos matar.

Lucelia Andrade

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