domingo, 8 de maio de 2016

Eunício Oliveira: “É muito difícil formar base num país com mais de 30 partidos”

Michel Temer precisa de apoio político, para o caso de assumir provisoriamente a Presidência, com o possível afastamento da presidente Dilma Rousseff. No curtíssimo prazo, para garantir votos pelo afastamento definitivo. Num prazo também curto, para aprovar reformas urgentes. Para isso, é bom distribuir pastas. Mas Temer também precisa de credibilidade e qualidade de gestão. Não pode sucumbir ao clima de balcão de negócios que tornou o governo do PT refém de uma base pouco confiável. Para tanto, um time de notáveis é preferível. As duas qualidades são necessárias, não dá para escolher uma só. Qual privilegiar?

>> Vale sacrificar a credibilidade por apoios políticos?

ÉPOCA – Michel Temer disse que teria um ministério enxuto e de “notáveis”. Nas últimas semanas, porém, disse que deve cortar só três Pastas. Os ministeriáveis cotados são os mesmos de sempre. Ele desistiu das ideias iniciais?
Eunício Oliveira – A questão do impeachment ainda está posta no Senado. Para afastar a presidente, é necessário um número de votos. Pelo que sei, e estive com ele há pouco, não está fechado quantos ministérios serão e quem estará neles. É muito difícil formar uma base majoritária num país com mais de 30 partidos.

ÉPOCA – O senhor atribui a dificuldade de cortar Pastas à quantidade de partidos. Sendo assim,  parte do problema que vivemos com Dilma tende a permanecer. Como governar assim? É o momento de uma reforma política?
Eunício – O Senado aprovou uma reforma e encaminhou à Câmara dos Deputados. Temos de acabar com as coligações proporcionais. Foi um erro o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) definir que você pode criar um partido levando o tempo de televisão e o Fundo Partidário. É um equívoco, porque as pessoas foram eleitas com um discurso e um partido. Deu no que deu. Acho que tem ministério demais, mas você não consegue formar base sem um número elevado de ministérios.

ÉPOCA – É um mal necessário?
Eunício – Cada partido quer ter sua representação. Isso cria embaraços. Não tenho dúvida.

ÉPOCA – E se a regra para criar partidos mudar?
Eunício – Mudando isso, melhora a imagem dos políticos e do Legislativo. Eu nunca mudei de partido. Temos quem já mudou cinco vezes de partido, em cinco anos. O ex-governador Ciro Gomes já mudou de partido nove vezes para acomodar seus interesses, nunca os da sociedade. Esse modelo é malévolo para o Brasil.

ÉPOCA – Como ter uma base ampla de apoio e nomes com credibilidade?
Eunício – Já estou com o Temer – eu na tesouraria e ele na presidência do PMDB – há quase 15 anos. Não tenho dúvida, se o impedimento acontecer, de que ele formará uma equipe com um novo patamar de credibilidade.

ÉPOCA – O afastamento do presidente da Câmara, Eduardo Cunha, pelo Supremo Tribunal Federal, elimina uma restrição a Temer: ter um réu como substituto imediato. No que mais o afastamento impacta um governo Temer?
Eunício – O afastamento não interfere em absolutamente nada do ponto de vista da montagem do ministério de um possível governo Temer. Na linha sucessória, se havia algum questionamento, o próprio Supremo elucidou.

ÉPOCA – A lista de cotados a ministérios de um governo Temer contempla investigados na Lava Jato. Isso não afeta a credibilidade?
Eunício – Tenho certeza absoluta de que Temer não colocará em seu governo nenhum condenado. Ele é um constitucionalista, um democrata. Jamais, entendo eu, colocaria um denunciado em seu governo. Agora, há essa questão de investigação, de citação. Todos nós estamos sendo possivelmente investigados. Investigação não quer dizer condenação.

ÉPOCA – Quais serão os primeiros desafios de um possível governo Temer? Além da crise econômica, Temer teria a peculiaridade de assumir um governo provisório, com Dilma apenas temporariamente afastada.
Eunício – Não é fácil para nós afastar uma presidente da República, que eu reputo, do ponto de vista da honestidade, como uma pessoa correta. Esse é o entendimento, que percebo, em relação à presidente Dilma. O grande desafio de hoje é que temos uma economia que perde credibilidade, perde oportunidades e perde empregos, a cada dia, de forma dramática. Recebemos pessoas angustiadas que nos procuram, como presidentes de sindicatos. Um grupo que representava shopping centers disse que grande parte do problema para o investimento no setor era a credibilidade. Dinheiro existia. As pessoas estão esperando para ver se o Brasil reage. Então temos uma crise que é política, que espero que seja estancada com o impedimento da presidente. Temos uma crise econômica, que é muito mais uma crise de credibilidade. O primeiro passo terá de ser o renascimento da esperança.

ÉPOCA – A credibilidade de um novo governo passará por sua capacidade de aprovar no Congresso pautas que o governo de Dilma não conseguiu. Como o Senado pode contribuir?
Eunício – Não podemos ser responsabilizados pelo desmantelamento atual da economia brasileira, porque o Senado nunca fez uma pauta-bomba. Pelo contrário. Pautas-bomba chegaram ao Senado e nós arquivamos. Nunca faltamos nem ao governo nem ao Brasil. Aprovamos medidas duras como a reoneração das empresas brasileiras. Aprovamos a redução de vários tipos de benefícios que oneravam exageradamente a sociedade. O Senado deu sua contribuição. Não vamos tapar o sol com a peneira nem dizer que Temer, se vier a ser o presidente da República, será a solução imediata para todos os problemas do Brasil. Os problemas precisam ser discutidos com a sociedade. O governo perdeu tanto, do ponto de vista da articulação política, que a presidente não obteve sequer 135 votos num colégio eleitoral de 513 deputados. Isso ocorreu numa Câmara em que há 68% de deputados novatos, em primeiro mandato, que são mais facilmente abertos ao diálogo.

ÉPOCA – O PSDB tem se mostrado ora aliado de um novo governo, ora crítico. Alguns dizem temer a repetição da estrutura de ministérios de Dilma. Qual o papel dos tucanos?
Eunício – Com certeza, esse não será o ministério da presidente Dilma. Novas pessoas e uma nova correlação de forças aqui dentro, compondo a participação administrativa. Acho que o PSDB tem um papel importante neste momento, porque o impeachment não está sendo feito pelo PMDB. O impeachment está sendo feito por todos os partidos, inclusive pelo PSDB. O Brasil precisa do PSDB neste momento, para reconstruirmos nossa economia e, talvez até – desejo muito que isso aconteça –, para produzir a paz. O Brasil está dividido. As pessoas estão intolerantes.

ÉPOCA – Qual foi o maior erro de Dilma?
Eunício – Uma série de erros. Quando terminou o pleito eleitoral, o Brasil estava praticamente dividido. Um lado teve maioria, mas o outro lado manteve uma disputa muito acirrada. Aquele era o momento de buscarmos, todos, a conciliação nacional. O vencedor tem de ser sempre magnânimo. Mas, no dia seguinte, não aconteceu essa busca do entendimento político. Em minha avaliação, talvez esse tenha sido o maior erro, porque a crise política, a instabilidade e a incerteza geraram a instabilidade econômica. Sem falar que, nesse caminho, temos uma discussão muito forte na sociedade brasileira sobre a crise ética que presenciamos.

FONTE: Revista Época

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